Uma revelação para os sentidos, uma prova
para o corpo.
Há quem diga ter vivido
ali experiências únicas, visões do passado
e do futuro. O fato é que, a 4.000 m de altitude,
não há como escapar da hipoxia (baixo teor
de oxigênio), que tem como conseqüência
a diminuição da atividade do sistema nervoso
central.
Sim, o deserto hipnotiza e
surpreende, mesmo com um clima extremamente árido
--o mais seco do mundo, que faz os olhos e o nariz arderem--,
mesmo com sensações térmicas até
então desconhecidas --sim, estamos falando de 30ºC
negativos.
Milhões de anos de
transformações geológicas deram origem
a cordilheiras, vulcões, salares e lagoas que se
misturam a um céu turquesa sem nuvens, salpicado
de estrelas e a uma flora e uma fauna únicas. Uma
paisagem de, literalmente, tirar o fôlego.
Como um oásis, San
Pedro de Atacama, um povoado com 4.969 habitantes a 2.443
m de altitude, é a porta de entrada para esse deserto.
Fica a pouco mais de uma hora de carro de Calama, cidade
em que pousam os vôos regionais e que detém
o recorde mundial de 400 anos sem chuva (1571/1971).
Mesmo pequena, San Pedro tem
em seu passado uma vasta história. Os primeiros habitantes,
ex-nômades, instalaram-se lá há 11 mil
anos, desenvolveram a irrigação e a agricultura,
domesticaram alpacas e lhamas, inventaram a cerâmica
e transformaram o vilarejo na ''capital arqueológica
do Chile''.
Para vasculhar cada canto
do Atacama, seriam precisos 90 dias, calcula Luis Bazzaza,
guia experiente da região. Caindo no mundo real,
cinco noites é o mínimo, assim como uma mala
muito bem preparada, onde não há espaço
algum para vaidades.
A maioria dos hotéis
inclui os passeios nos pacotes, e subir às alturas
chega a ser um impulso irresistível para quem está
aos pés da mais longa cadeia de montanhas do mundo.
Mas, como alerta Carlos Gerk, especialista em medicina de
altitude, é preciso dar tempo para o corpo adaptar-se.
E é assim, gradualmente, que as "escaladas"
devem ser programadas. Nada de ascender cumes e vulcões
de mais de 5.500 m, que podem terminar em edemas pulmonar
e cerebral para quem não está devidamente
preparado.
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| Suas erosões
milenares são espetaculares, uma aula de ciências,
ao meio-dia com o sol a pino.
À tarde, o destino é
o salar de Atacama (2.300 m). A paisagem muda radicalmente,
e a vegetação resiste bravamente numa planície
com quase 100 km de extensão coberta de sal, de onde
afloram lagoas azuis habitadas por flamingos.
Já no segundo dia, há
quem, como a repórter, ignore recomendações
médicas e meteorológicas e dê um passo
além do que devia. Rumo ao salar de Tara, na fronteira
com a Bolívia, a mais de 4.000 m, o carro sacoleja.
A cabeça dói, a náusea aparece. Nem chá
de coca resolve.
Mas nessa planície desolada
surgem monumentais colunas e paredões de pedra. E não
dá para caminhar de encontro a eles. Com ventos frios
a 70 km/h e temperatura abaixo de zero, o meteorologista da
USP Mario Festa calcula uma sensação térmica
de 32ºC negativos. O frio é de matar. Tudo perde
a graça.
O guia ensina, então,
a tomar água, muita água. O melhor seria água-de-coco,
corrige o professor Gerk, já que, "com o ar seco,
a cada respiração, perdemos também eletrólitos".
O problema é que não há banheiros no
meio do deserto. E aventurar-se atrás das rochas, com
os termômetros abaixo de zero, não é nada
fácil.
Vilinha lúdica
O terceiro dia começa
de madrugada. É hora de sacolejar duas horas, de estômago
vazio, rumo aos gêiseres do Tatio, a 4.320 m. Ao chegar,
com o sol nascendo e a cabeça explodindo, parece um
sonho: centenas de jatos de água fervente são
expelidos do solo, atingindo 10 m de altura. O fenômeno,
que dura poucas horas, ocorre quando as águas frias
de rios subterrâneos encontram as lavas vulcânicas.
Depois de um café da
manhã improvisado em meio a um cenário vulcânico,
passa-se pela encantadora Machuca, vila que parece uma pintura
infantil, com apenas nove casas de adobe, e cruza-se com lhamas
e vicunhas até chegar às termas de Puritana,
onde, assim como no Tatio, há piscinas naturais de
água clara e quentíssima -de 30ºC a 40ºC.
Na última noite no deserto,
é hora de, pela primeira vez, tirar vantagem dos 7%
de umidade média relativa do ar. Não é
para menos que lá estão instalados 34 radiotelescópios.
É impossível tirar os olhos de estrelas, galáxias
e nebulosas, que parecem estar ao alcance da mão. E
de esquecer a imagem dos anéis de Saturno.
Patrícia Trudes da Veiga
viajou a convite da LAN Airlines e do hotel Tierra Atacama,
com o apoio dos hotéis Awasi e Explora.
Para quem
Aventureiros que colocam o corpo à prova e buscam uma
revelação para os sentidos, explorando cordilheiras,
vulcões, salares e lagoas, em meio a um céu
azul-turquesa sem nuvens, repleto de estrelas e com uma flora
e uma fauna únicas
Quando ir
O ano inteiro (evite a lua cheia, que "esconde"
as estrelas); os meses de meia-estação são
os melhores, com temperaturas mais amenas; no inverno (de
junho a agosto), ela varia de 9ºC a 24ºC, caindo
para abaixo de zero nas madrugadas
Como chegar
De avião, o vôo Santiago-Calama dura 1h45; até
San Pedro de Atacama, mais uma hora e meia de carro
Hora local
-1h em relação a Brasília
Idioma
Espanhol
Moeda
Peso chileno; US$ 1 = 491,3 pesos chilenos; 1.000 pesos chilenos
compram R$ 3,24
Dica
Bagagem indispensável: botas para caminhadas, calça
jeans confortável ou calça conversível
em bermuda, jaqueta especial, boné, gorro, cachecol,
luvas, óculos de sol, maiô, toalha, mochila (com
água-de-coco, protetor solar FPS 30, protetor labial,
soro fisiológico, papel higiênico e kit de primeiros
socorros); vista-se "em camadas", com meia-calça/ceroula
e roupas de pura lã e/ou especiais corta-vento.
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