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Redescobrindo o Brasil Caiçara

 

Uma extensão de 480 quilômetros pelo litoral do Rio de Janeiro e de São Paulo, remando um caiaque oceânico. Este é o desafio do sorocabano Sandro de Ayres Ribas e de seu filho João Gabriel Ferreira Ayres Ribas, durante as férias de fim de ano. Com início entre os dias 17 e 20 de dezembro, a travessia partirá da praia de Copacabana e seguirá pela costa, passando pelas praias cariocas, pela Barra de Guaratiba, Baía de Sepetiba, Ilha Grande, Angra dos Reis, Paraty, Ubatuba, Ilha Bela, Caraguatatuba, São Sebastião e Bertioga. A expedição se encerra, no máximo, até o dia 10 de janeiro, em Santos.

O roteiro entre a Serra do Mar e o Oceano Atlântico compõe a última etapa do projeto Redescobrindo o Brasil Caiçara, que busca percorrer todo o território caiçara: a faixa territorial entre o litoral Sul do Rio de Janeiro e a porção norte do Paraná. Para isso, pai e filho já pedalaram da Ilha do Mel até Paraty e remaram pelas baías e mangues do Pólo Ecoturístico do Lagamar.

A viagem será dividida em dez etapas. As primeiras praias do Rio de Janeiro serão percorridas no primeiro dia, quando os sorocabanos enfrentarão as principais dificuldades. Por serem muito longas (aproximadamente 48,5 quilômetros), os ventos fortes e as ondulações de onda são frequentes nesta faixa. "É uma remada muito intensa. O risco maior é termos que voltar para a praia e esperar um dia melhor para continuar a viagem", explica Sandro. As outras etapas, segundo ele, são mais tranquilas, já que acontecem dentro de baías, ilhas e áreas protegidas.

Como é proibido acampar em praias, Sandro e João Gabriel dormirão em pequenas ilhas ou nos quintais de comunidades caiçaras. Antes de começar o segundo dia, pretendem fazer uma parada para descansar. "Se estivermos muito exaustos, podemos até ficar numa pousada". Em seguida, o caiaque passará três dias na Ilha Grande e partirá com destino a Paraty. Em determinado momento, viajarão em mar aberto, o que requer equipamentos de navegação. A expedição segue mais tranquila a partir daí.

Ao fim da travessia "Copacabana a Santos", pai e filho reunirão as lições aprendidas, experiências e imagens das expedições já realizadas para transformá-las em palestras motivacionais destinadas a jovens e adultos, além de uma peça de teatro de fantoches para crianças, escrita pela esposa e pela filha de Sandro. As ações deverão percorrer empresas, associações, fundações, escolas e eventos esportivos. Já as fotos ficarão expostas em lugares públicos e grandes lojas de departamento. (Supervisão: Adriano Catozzi) Expedição exige planejamento, preparo físico e conhecimentos técnicos

Idealizada há mais de dois anos, a expedição entre Copacabana e Santos exigiu preparo físico e emocional, um bom planejamento e conhecimentos técnicos. Em fase de pesquisas, pai e filho partiram em outras viagens de caiaque e começaram a praticar o esporte em locais como Cananéia e Itanhaém. A rota da expedição foi traçada com base em uma carta náutica, conferida no GPS e no Google Plus (ferramenta que permite o acesso de informações privadas). Através da internet, Sandro também buscou fotografias e relatos de pessoas que já haviam passado pela experiência. Para completar, o sorocabano decidiu, primeiro, fazer a travessia pedalando. "Foram 12 dias usando binóculos, conhecendo caiçaras e pesquisando sobre as praias", conta. Pai e filho também fizeram cursos sobre canoagem oceânica e cicloturismo logo que descobriram o esporte, há cerca de cinco anos.

Antes de pôr em prática o projeto, Sandro e João Gabriel procuraram um cardiologista esportivo e um ortopedista. "Fizemos uma bateria de exames, até porque eu tenho uma hérnia de disco na quinta lombar", admite o pai. Os resultados dos exames chegaram às mãos do personal trainer, que ficou responsável pelo treinamento físico dos dois. O condicionamento é dirigido para a canoagem, trabalhando o fortalecimento da região lombar e dos membros superiores.

Os treinos na água se restringem aos fins de semana, quando Sandro não está trabalhando e João não vai à escola. Por isso, o treinamento é bruto: são percorridos de 35 a 45 quilômetros por dia, não importa o que aconteça. "Nós entramos no caiaque com chuva, ventos fortes ou marola alta e fazemos acontecer", ressalta Sandro. Uma nova dieta, supervisionada por um nutricionista, também foi incorporada à rotina da família desde o mês passado. Os alimentos que fazem mal à saúde foram cortados e João Gabriel precisou ganhar peso, enquanto Sandro recebeu a missão de perder gordura.

São permitidas mais de 5 mil calorias por dia ao filho, ao mesmo tempo em que o pai só pode ingerir 1.800. João, que estava com 53 quilos quando começou a dieta, precisa chegar aos 58. A boa notícia é que já conseguiu enxergar o número 57 na balança. Já Sandro, com um peso habitual de 125 quilos, terá que suar para alcançar os 110. O peso do pai hoje é de 120 quilos.

Com pouco se faz muito

O abastecimento do caiaque fica por conta de João Gabriel. Nele, são guardados sacos de dormir, barracas, redes, equipamentos individuais de cozinha, fogareiro de acampamento e um facão, que também funciona como machado. O dinheiro trocado fica escondido em um saco à prova d"água. Além de peixes, comprados de pescadores com quem cruzam durante o caminho, a comida dos sorocabanos em suas aventuras baseiam-se em calabresa defumada, lentilha, refeições instantâneas e sementes, como damasco, tâmaras e castanhas.

Sandro sempre gostou das opções, mas João aprendeu a comer de tudo durante a primeira expedição. "Se não quiser comer na viagem, passa fome. Então, eu aprendi a adorar esse tipo de coisa", explica-se. A comida ficará distribuída em pontos estratégicos de parada do caiaque. Sandro despachará os alimentos para conhecidos em Paraty, Ilha Bela e Boiçucanga. O caiaque ainda conta com uma bolsa de primeiros socorros e repelentes contra insetos. Para os banhos nas cachoeiras, levam itens pessoais de banho, uma toalha de alta absorção e roupas leves. Em último caso, lenços umedecidos substituem os banhos.

Celular e rádio via satélite, GPS, sistema de rastreamento, itens de camping e câmeras fotográficas completam a bagagem. Todos os pertences são colocados em sacos e compartimentos que evitam a entrada de água. Já carregado, o caiaque fica apenas 30 quilos mais pesado. "A cada nova expedição percebemos que não precisamos de muito para viver. Com pouco se faz muito", completa Sandro.

Para unir a família e se desligar do mundo

Gerente de projetos, Sandro sempre precisou viajar bastante. A ausência dentro de casa, entretanto, fez com que sentisse culpa por participar tão pouco da vida dos filhos e da esposa. Além disto, o sorocabano, com formação militar em salvamento aéreo, se considera uma pessoa de metas, disposto a encarar qualquer desafio. "Sempre tive vontade de buscar algo a mais e o esporte é uma coisa que transforma as pessoas", acredita.

Primeiramente, Sandro tentou unir a família apresentando-lhes o mergulho que, mais tarde, mostrou-se bastante individual. Como João Gabriel gosta muito de pescar e pesquisar sobre a fauna e a flora marinhas, surgiu a ideia de tentar a canoagem. "Remar e participar da vida caiçara é legal, mas mostrar para o meu filho que existe muito mais do que a TV digital e o videogame não tem preço".

Sandro apresentou ao filho um mundo novo, com outras experiências e valores não aprendidos na escola. Em troca, o gerente de projetos também aprendeu com o filho. "Com 42 anos, eu venho tentando buscar (e acho que isso vai ser uma busca contínua) me reinventar para acompanhar a geração do meu filho de 18 anos".

Para João, as expedições trouxeram a habilidade de aprender a conviver com os outros. Sempre muito tímido, o estudante conseguiu evoluir sua socialização a partir da canoagem, e passou a conversar mais com outras pessoas e se arriscar. Destas conversas, vieram grandes aprendizados. "Há sempre alguém no caminho que te ensina algo. Por mais que a maioria dos caiçaras não tenha estudo completo, eles sabem muito sobre a vida", explica.

Das primeiras viagens, João Gabriel carrega consigo a frase de um integrante de uma comunidade caiçara, no Paraná. A pergunta do sorocabano "Será que tem peixe por aqui?" foi respondida claramente pelo desconhecido: "Se você não jogar o anzol, nunca vai saber".

Com as viagens, pai e filho também se viram obrigados a pensar rápido, estar preparados para o inesperado e saber se adaptar às mudanças. A experiência fez com que Sandro evoluísse, amadurecesse e encontrasse um novo sentido para a vida. "Eu me desconecto, me renovo e logo estou pronto para mais um ano de trabalho".

A esposa e a filha também acompanham o esporte. A família, entretanto, não gosta de ser comparada a esportistas. "Nós temos uma vida normal, não vivemos do esporte. Só praticamos para unir e família e se desligar do mundo", explica Sandro. Sandro se diz realizado como pai e como ser humano. "Percebo que, em pouco tempo, consegui transmitir valores a ele que algumas famílias demoram a vida inteira para transmitir. E, muitas vezes, não conseguem".

Notícia publicada na edição de 29/10/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 4 do caderno D - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

 

 

 

 

 

 

 

 

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