Entrevista
com a Família Goldschmidt
Como surgiu o projeto Giro
pela América? Quando vocês tiveram
a idéia de se aventurar pelo continente
sul- americano em um motorhome?
A
idéia surgiu em 1998. Eu tinha uma produtora
de vídeos que tomava muito meu tempo.
Cada vez eu tinha menos tempo para a família,
pois reuniões e viagens são uma
constante nesta atividade. Meus filhos estavam
crescendo e eu praticamente não estava
acompanhando essa evolução como
achava que deveria acompanhar. Além desse
objetivo pessoal, havia também o lado
comercial. Eu queria valorizar as belezas do
continente. A maioria das pessoas só
pensam em viajar para a Europa ou Estados Unidos,
se esquece que com pouco mais de US$ 300 é
possível fazer expedições
turísticas fantásticas ao Chile,
por exemplo. Quando a Sandra levantou a idéia
de mudar de casa, eu levantei a idéia
de mudar de vida. A idéia era viver juntos,
trabalhar juntos, enfim, colocar a família
em primeiro lugar e o trabalho em segundo. Ela
concordou na hora e dentro de uma semana o projeto
já estava em andamento
Qual
foi a primeira aventura que vocês fizeram?
Desde
que nos casamos, eu e a Sandra sempre fizemos
muitas aventuras. A maior delas foi largar tudo
em 1987 e ir morar e trabalhar em Londres, na
Inglaterra. Lá fizemos de tudo, desde
garçom até guarda noturno. Em
1998 elaboramos um projeto de vida que unisse
o nosso trabalho (produtor de vídeo),
nossa família e nosso prazer, viajar.
Daí surgiu o projeto Giro Pela América,
que tem o objetivo de mostrar para os brasileiros
as belezas naturais e culturais do nosso continente,
principalmente os lugares que tem grande potencial
turístico, mas são pouco conhecidos.
Outro objetivo é incentivar as pessoas
a fazerem atividades em família. Afinal,
é importante você partilhar os
melhores momentos da sua vida com as pessoas
que ama.
Quando começou o projeto?
A
primeira etapa do projeto começou em
1999, quando em um ano de viagem percorremos
o sul do Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e
Paraguai. Foram 31 mil quilômetros percorridos
em 331 dias de expedição.
Como
foi viver 331 dias em um motor home?
O
Pégaso (nome do ônibus adaptado)
é praticamente uma casa. Tem quase 12
metros de comprimento, 2,5 metros de largura,
1,90 metros de altura interna, um quarto de
casal com suíte, banheiro, dois beliches,
cozinha completa, sala com duas mesas, uma área
de trabalho, cockpit do motorista, além
de lava-roupas e secadora, gerador de energia,
computador e um telefone via satélite
capaz de acessar a Internet de qualquer lugar
do planeta. Eu costumava brincar ao dizer que
a casa sobre rodas é pequena, mas temos
um quintal enorme, do tamanho do mundo.
Qual
o lugar que mais gostaram e menos gostaram?
Por que?
É
difícil dizer, pois gostamos de vários
lugares e cada lugar tem sua beleza especial.
Vou arriscar e citar alguns:
Glaciar Perito Moreno em El Calafate na Argentina.
Um glaciar fantástico com enormes paredes
de gelo que se quebram e caem com enorme estrondo
no lago Argentino
Ushuaia
na Terra do Fogo - Argentina. Esta é
a cidade mais austral do planeta e conhecida
com a cidade do fim do mundo. Ela fica entre
o canal de Beagle e uma cordilheira nevada coberta
por bosques. Mais parece o Paraíso do
começo do mundo do que seu final. O único
problema é a temperatura de 25 graus
negativos no inverno.
Deserto
do Atacama - norte do Chile - Um lugar fantástico
e mágico com longas distâncias
sem nada, salares imensos, rios com água
quentes, geisers, vulcões nevados, muitas
formações rochosas e ruínas
Incas. Adoro quando vou para lá.
Chapada
Diamantina - Bahia, Brasil - Adorei nossa recente
estada lá. Lembra muito o norte do Chile,
só que acrescido de muito verde e muita
água. É impossível estar
lá e não começar a crer
na criação do mundo por Deus.
O
lugar que menos gostei? Cidades grandes em geral.
Detestamos. Mesmo quando são bonitas,
o trânsito e a confusão estraga
tudo.
Vocês
já tem algum material publicado? Fazem
algum tipo de palestra?
Estamos
documentando a expedição em foto
comum, cromo, foto digital, áudio e vídeo
digital. Já lançamos um livro
chamado Giro Pela América publicado pela
Editora ARX e uma fita de vídeo que é
vendida através do nosso site. No final
desta segunda etapa pretendemos editar outro
livro, um DVD e um CD-ROM com fotos e vídeos.
Também realizamos exposições
fotográficas e palestras motivacionais.
Apresentamos também uma palestra motivacional
com o título de "Sonhos e Decisões".
Nela tentamos mostrar que a vida de todo mundo
é uma aventura cheia de sonhos e esperanças.
É importante sonhar e tomar decisões
para tornar o sonho em uma realidade. Usamos
fatos que aconteceram durante nossas viagens
para ilustrar fatos do dia a dia e motivar as
pessoas a correrem atrás de seus sonhos.
O legal é que as crianças participam
ativamente das palestras.
Como
é levar uma vida tão alternativa,
com filhos ainda crianças?
Nada
é fácil nesta vida, nem ficar,
nem partir. O importante é persistir
atrás daquilo que a gente quer, viver
feliz consigo mesmo e satisfeito com o resultado
obtido. Deus quer que o ser humano seja feliz
e para isto ele tem que ser realizado. Eu tento
fazer isto.
Quanto às crianças acho que elas
gostam desta vida de aventuras, sempre vendo
lugares novos, gente nova, novos amigos. Cada
dia é uma surpresa, uma emoção
diferente. Acho que tenho uma explicação
para isto. Sou o filho de pai alemão
(com ascendência judaica) e netos de portugueses
com espanhóis. A Sandra é filha
de pai japonês e neta de italiano e índio.
Acho que esta mistura nos fez meio nômades,
meio cidadãos do mundo, sei lá.
A mistura deu certo!
E,
as tarefas diárias, como são feitas?
Tentamos
dividas atividades. A Sandra cuida da casa com
a ajuda da Ingrid e também é a
professora da turma. Ela já é
formada em letras há 20 anos. Nas reportagens
ela faz a maioria das fotos digitais.
Eu cuido do diário de bordo e das reportagens
escritas. Faço boletins de rádio
e as fotos em cromo e filmagens. Meu braço
direito é o Erick que me ajuda em quase
tudo.
Depois de tanto tempo viajando, quando vocês
voltam para casa, deve ser
difícil se adaptar novamente. Como é
isso para a família?
A
Família acaba sem muita opção.
Nós vamos e eles só podem reclamar,
mais nada. Eu e a Sandra somos os filhos mais
velhos e por isto é um pouco mais difícil.
O telefone e a internet nos ajudam muito. Quando
voltamos de uma expedição de um
ano ou mais, sempre estranhamos nossa casa.
Comparado com o Pégaso, nosso motorhome,
tudo é muito grande e longe. Minha casa
não é grande, é o motorhome
que é pequeno em comparação
a ela.
Dentro do Pégaso, tudo é controlado,
a luz, a água, tudo tem que ser econômico,
pois se usar demais vai fazer falta. Em casa
acabamos adotando esta economia, pois sabemos
que os recursos têm fim, e custam caro.
Tem sido uma boa lição de vida.
Por isto estamos empenhados em ensinar aos outros
a importância de economizar os recursos
de água e de luz. Aprendemos por experiência
própria quanto eles custam. É
muito difícil sair do motorhome com uma
temperatura de menos 10 graus lá fora,
para ligar uma torneira para encher a caixa
d´água do ônibus no meio
da noite. É melhor economizar.
E as crianças, como estudaram durante
este tempo?
PG- Minha esposa Sandra foi professora durante
17 anos, eu entendo de matemática. Nós
desenvolvemos um sistema, onde além das
matérias obrigatórias das escolas
brasileiras, aproveitamos a própria natureza
para ensinar lições que não
se aprende na escola. Além disso, todas
as dúvidas eram esclarecidas via Internet
com a escola em Atibaia.
Conte
alguns fatos pitorescos.
Em 31 de dezembro de 1999, na virada do século,
estávamos na Praia do Cassino no Rio
Grande do Sul, e saímos para conhecer
um farol (Sarita ) a uns 60 kms da cidade. Na
hora do pôr-do-sol, notei que a bateria
estava arreada, e que iríamos dormir
no relento em plena virada do século.
Fizemos uma oração, e quando abri
os olhos avistei luzes de um carro que se aproximava.
Era um pescador que disse que tivemos muita
sorte, pois ele era a última pessoa a
passar por aquele local naquela noite, já
que o farol era desabitado e servia apenas de
sinalização para os barcos.
E
em outros paises ?
Na Patagônia Argentina entramos literalmente
em uma fria. Um mecânico mexeu errado
no motorhome e fundiu o motor do ônibus.
No local não havia peças para
o conserto, e o que conseguimos era muito caro.
Levamos quase dois meses para arrumar o motor
debaixo da neve em Comodoro Rivadavia. Com uma
sensação térmica de -20º
e ventos de mais de 100 km por hora passamos
mais de 3 meses morando em frente a uma padaria,
emprestando água e luz e passando um
frio terrível.
Em Torres Del Paine no Norte do Chile, meus
filhos adotaram uma gatinha, a última
que sobrou de um ataque de zorros (raposas).
Só descobri quando estávamos dentro
do ônibus para atravessar a fronteira.
Tivemos que escondê-la várias vezes,
pois a Paine - assim a chamamos - não
tinha vacina, nem qualquer outra identificação.
No dia que íamos entrar no Brasil, ela
assustou-se com um cachorro e subiu na carroceria
de um caminhão, que logo depois partiu
deixando o país, numa rota inversa a
nossa. Foi a última vez que vimos a Paine,
e foi só choro e tristeza no motorhome.
Quais os maiores ensinamentos da viagem?
Somos Adventistas do Sétimo Dia. Deus
nos protegeu durante a viagem toda, aliás,
foi o 5º passageiro do motorhome. Entre
as descobertas e frustrações que
a viagem proporcionou, notamos que enfrentando
juntos as dificuldades, até o mais inóspito
lugar do continente pode se transformar no lugar
ideal. Tivemos que nos adaptar as condições
e aos obstáculos inesperados, eu por
exemplo, aprendi na prática tudo sobre
mecânica, marcenaria, hidráulica
e eletricidade. Por ter uma quantidade limitada
de energia e água aprendemos também
na prática como é importante economizar
esses recursos.
E as próximas aventuras?
Quando terminarmos a segunda fase me 2004, vamos
iniciar os preparativos para a terceira que
deverá começar em 2005. Nesta
última fase do projeto, pretendemos viajar
pelo norte do Chile, Peru, Bolívia e
Equador.
Deixe
uma mensagem final para os leitores.
PG- Eu vou repetir a frase de Vitor Hugo: "Não
há nada como um sonho para criar o futuro".
Sonhe e corra atrás dos recursos para
realizá-lo. Sua vida será mais
feliz e completa. Deus ajuda a quem cedo madruga.
Para
obter mais informações visite
o site da Família Goldschmidt:
O nosso site é atualizado diariamente
através do telefone Globalstar (via satélite)
que possuímos. Visite-nos e viagem um
pouco conosco www.giropelaamerica.com.br
A Família conta com vários apoios
sem os quais seria muito difícil realizar
esta expedição.
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